terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Abordagem ao Desconhecido Segundo o Pensamento Animista

 Um livro para aqueles que buscam a compreensão da existência humana e o sentido de cada ser humano nesta jornada em que chamamos de vida.
 
                                                                                                    Joaquim Luiz Nogueira 
Este livro recebe encomendas pelo email jolnogueira @gmail.com - direto com o autor 

capitulo 1 

Abordagem ao Desconhecido Segundo o Pensamento Animista

 

E como sabemos, esta noção infantil (ou algo muito semelhante) de um mundo governado antes por uma moral do que por leis físicas, mantido sob controle de uma personalidade parental superior em lugar de forças físicas impessoais e orientado para o bem e para o mal do homem, é uma ilusão que domina o pensamento humano na maior parte do mundo – ou mesmo a maior parte do pensamento humano em todas as partes do mundo – até o presente momento[1]

 

De acordo com a observação da mente infantil, a criança acredita que seu brinquedo, por exemplo: a boneca. Essa, segundo a criança, possui capacidade para interagir com ela. Neste sentido, ela troca de lugar com o objeto, que passa a responder as indagações da mesma, usando a mente e a boca da própria criança.

Segundo os antropólogos Hoebel e Frost, o “Animismo é a crença na existência de seres espirituais e na atribuição de vida a objetos inanimados” (HOEBEL, 1999, p.443). Sendo assim, Alguns povos tidos como mais “primitivos” pelas sociedades ditas “civilizadas”, admitem que as montanhas, rios e árvores, dentre outros elementos naturais, participam junto a seus lideres das decisões sociais das comunidades.


Para Hoebel, “Todas estas expressões de realismo são atos de realização de uma vontade por meio da magia compulsiva e mimética” (HOEBEL, 1999,p.95). Neste sentido, animismo (capacidade de acreditar que tudo tem vida) e mana[1] são elementos importantes desta visão humana:

O animismo e o mana são atributos dos aspectos subjetivos do sobrenaturalismo. A religião e a magia são conceitos buscados na maneira como o indivíduo se comporta em relação as forças sobrenaturais em que acredita (HOEBEL, 1999, p.367).

Dentro de uma visão animista, abordam-se objetos construídos pelo homem ou pela natureza, como entidades capazes de não só comunicarem com as pessoas, mas também de ajudá-las junto à angustias, preocupações, desejos e necessidades humanas. As técnicas mais usadas para a tentativa de estabelecermos um relacionamento com este universo segundo Hoebel é a oração e a magia:

A oração e a magia são duas técnicas básicas do relacionamento com o sobrenatural. A primeira é um meio de procurar o relacionamento espiritual com base na subordinação aos seres animistas. A segunda é uma técnica de conseguir controle externo sobre os poderes sobrenaturais, animistas e manaístas (Hoebel, 1999, p.367).

De acordo com o pensamento religioso, o indivíduo possui uma certeza de que a superioridade na qual ele acredita é de algum modo, responsável pelo seu estado atual, veja nas palavras de Hoebel: “No estado religioso de espírito, o indivíduo reconhece a superioridade dos poderes sobrenaturais das quais dependem sua ação ou seu bem estar” (HOEBEL,1999, p.367).

De outro ponto de vista, no caso do praticante da magia, a crença é de que ele pode manipular os poderes sobrenaturais e como num jogo, pode construir as condições que sejam favoráveis aos seus interesses. Desse modo, pode se criar procedimentos, estratégias, metodologias e táticas que possam modificar contextos em busca de resultados esperados:

O mago, por outro lado, acredita controlar o poder sobrenatural em determinada condições. Ele tem o poder
sobre o poder. Sente-se confirmado na sua crença de que se possui uma fórmula testada e, se aplicá-la perfeitamente, neutralizando toda interferência externa, conseguirá os resultados que aquela fórmula deve especificamente produzir. O poder sobrenatural não tem em si volição ou escolha. Ele deve responder (HOEBEL, 1999, p.368). 

[1] Segundo Hoebel, trata-se de “Crenças na existência de forças sobrenaturais que não emanam de nenhuma forma de ser. Tais forças são expressas como atributos essenciais das coisas”.p.366.

Nestas duas abordagens ao desconhecido podemos apontar algumas tendências mais comuns, que a distinguem, por exemplo, segundo Hoebel, “A atitude e o comportamento religioso são humildes; o mago trabalha com uma espécie de arrogância ou, pelo menos, de autoconfiança” (HOEBEL, 1999, p.368).

A inquietação diante de situações em que o homem não pode aceitar de forma passiva pode ser o início de novas formas de ver o mundo. Talvez, podemos refletir sobre a frase em que Hoebel busca junto ao antropólogo Malinowski[1]: “A magia começa onde termina a tecnologia mecânica”(HOEBEL, 1999, p.368).

Se refletirmos um pouco sobre a prática cotidiana e como, as máquinas ou a tecnologia nos abandonam constantemente em momentos específicos, veremos, o quanto manipulamos contextos físicos e sociais, para que interesses, planos e objetivos se realizem. Os sonhos acordados em que trabalhamos, também podem ser considerados magia. Vejamos nas palavras de Hoebel: “A magia tem muito em comum com o sonho acordado como forma de realização daquilo que se deseja” (HOEBEL, 1999, p.369).

Parece que abordamos o sobrenatural a todo instante e segundo a ideia primitiva de mana, essa força pode ser semelhante à realidade do filme Matrix[2], ou seja, de um mundo dominado por inteligências artificiais quase perfeitas ou autoritarismos que teriam mais possibilidades de realizações. Em reflexões como esta da ficção científica e do sobrenatural mencionado por Hoebel é que devemos considerar a atuação do mana:



[1] Bronislaw Kasper Malinowski, (Cracóvia, Polônia, 1884 -1942) Antropólogo funcionalista.

[2] No filme Matrix (Trilogia) de Andy Wachoeski e Larry Wachowski (1999), o mundo é uma farsa, construída por uma inteligência artificial e que usa os  humanos como seres programados.

O poder, que é extraordinário, não é uma força deste mundo. Ele não segue as leis regulares das tecnologias ordinárias ou das habilidades comuns. Como o poder dos espíritos, ele transcende o natural. O mana é sobrenatural (HOEBEL, 1999, p.367).

 Mircea Eliade também acrescenta que o poder do mana surgiu de uma necessidade dos homens  para se defenderem do vazio, isto é, da angústia do nada. Ele retira esta reflexão de um texto védico que se dirige ao um morto: “Rasteja para a terra, tua mãe! E possa ela te salvar do nada! (ELIADE, 2010, p.8).

De qualquer forma, podemos dizer que a mente humana não consegue agir sem algo que lhe assegure sentido, que vamos chamar aqui também de proteção contra toda espécie de sofrimento ou ameaça imediata, futura ou imaginária.

Para compreendermos esse repúdio do homem contra tudo o que lhe ameaça, Sai Baba, em sua tradução do Bhagavadgita nos fala que “o homem não tem a mesma natureza do corpo que ele ocupa. Ele é o Atma e a natureza do Atma é felicidade” (SAI BABA, 2006, p.147). De acordo com Sai Baba, o verdadeiro ser que habita o corpo, que conhecemos também como alma ou espírito, em sua totalidade é felicidade, e por isso, não se identifica com o sofrimento.

Então, tudo aquilo que nos apresenta como estranho, desconhecido, ameaçador a natureza da felicidade, recebe uma abordagem estruturada magicamente do mana, como explica  Eliade: “O insólito e o extraordinário são epifanias perturbadoras; indicam a presença de algo diferente do natural” (ELIADE, 2010, p.24).

Se o que nos apresenta é algo incomum, abordamos imediatamente com indagações: O que é isso? O que pretende? Porque esta fazendo isso? Neste contexto de perguntas, muitas vezes, obtemos respostas que se enquadram na visão animista colocadas no início deste capítulo. Algumas das ações desencadeadas a partir deste universo obedeceram a programação de “naturezas não visíveis” e este possível diálogo, vamos discutir nas páginas seguintes.


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