capitulo 1
Abordagem ao Desconhecido Segundo o
Pensamento Animista
E como sabemos, esta
noção infantil (ou algo muito semelhante) de um mundo governado antes por uma
moral do que por leis físicas, mantido sob controle de uma personalidade
parental superior em lugar de forças físicas impessoais e orientado para o bem
e para o mal do homem, é uma ilusão que domina o pensamento humano na maior
parte do mundo – ou mesmo a maior parte do pensamento humano em todas as partes
do mundo – até o presente momento[1]
De
acordo com a observação da mente infantil, a criança acredita que seu
brinquedo, por exemplo: a boneca. Essa, segundo a criança, possui capacidade
para interagir com ela. Neste sentido, ela troca de lugar com o objeto, que
passa a responder as indagações da mesma, usando a mente e a boca da própria criança.
Segundo
os antropólogos Hoebel e Frost, o “Animismo é a crença na existência de seres
espirituais e na atribuição de vida a objetos inanimados” (HOEBEL, 1999,
p.443). Sendo assim, Alguns povos tidos como mais “primitivos” pelas sociedades
ditas “civilizadas”, admitem que as montanhas, rios e árvores, dentre outros
elementos naturais, participam junto a seus lideres das decisões sociais das
comunidades.
Para
Hoebel, “Todas estas expressões de realismo são atos de realização de uma
vontade por meio da magia compulsiva e mimética” (HOEBEL, 1999,p.95). Neste
sentido, animismo (capacidade de acreditar que tudo tem vida) e mana[1]
são elementos importantes desta visão humana:
O animismo e o mana são
atributos dos aspectos subjetivos do sobrenaturalismo. A religião e a magia são
conceitos buscados na maneira como o indivíduo se comporta em relação as forças
sobrenaturais em que acredita (HOEBEL, 1999, p.367).
Dentro
de uma visão animista, abordam-se objetos construídos pelo homem ou pela
natureza, como entidades capazes de não só comunicarem com as pessoas, mas
também de ajudá-las junto à angustias, preocupações, desejos e necessidades
humanas. As técnicas mais usadas para a tentativa de estabelecermos um
relacionamento com este universo segundo Hoebel é a oração e a magia:
A oração e a magia são
duas técnicas básicas do relacionamento com o sobrenatural. A primeira é um
meio de procurar o relacionamento espiritual com base na subordinação aos seres
animistas. A segunda é uma técnica de conseguir controle externo sobre os poderes
sobrenaturais, animistas e manaístas (Hoebel, 1999, p.367).
De
acordo com o pensamento religioso, o indivíduo possui uma certeza de que a
superioridade na qual ele acredita é de algum modo, responsável pelo seu estado
atual, veja nas palavras de Hoebel: “No estado religioso de espírito, o
indivíduo reconhece a superioridade dos poderes sobrenaturais das quais
dependem sua ação ou seu bem estar” (HOEBEL,1999, p.367).
De
outro ponto de vista, no caso do praticante da magia, a crença é de que ele
pode manipular os poderes sobrenaturais e como num jogo, pode construir as
condições que sejam favoráveis aos seus interesses. Desse modo, pode se criar
procedimentos, estratégias, metodologias e táticas que possam modificar
contextos em busca de resultados esperados:
[1]
Segundo Hoebel, trata-se de “Crenças na existência de forças sobrenaturais que
não emanam de nenhuma forma de ser. Tais forças são expressas como atributos
essenciais das coisas”.p.366.
Nestas
duas abordagens ao desconhecido podemos apontar algumas tendências mais comuns,
que a distinguem, por exemplo, segundo Hoebel, “A atitude e o comportamento
religioso são humildes; o mago trabalha com uma espécie de arrogância ou, pelo
menos, de autoconfiança” (HOEBEL, 1999, p.368).
A
inquietação diante de situações em que o homem não pode aceitar de forma
passiva pode ser o início de novas formas de ver o mundo. Talvez, podemos
refletir sobre a frase em que Hoebel busca junto ao antropólogo Malinowski[1]:
“A magia começa onde termina a tecnologia mecânica”(HOEBEL, 1999, p.368).
Se
refletirmos um pouco sobre a prática cotidiana e como, as máquinas ou a
tecnologia nos abandonam constantemente em momentos específicos, veremos, o
quanto manipulamos contextos físicos e sociais, para que interesses, planos e
objetivos se realizem. Os sonhos acordados em que trabalhamos, também podem ser
considerados magia. Vejamos nas palavras de Hoebel: “A magia tem muito em comum
com o sonho acordado como forma de realização daquilo que se deseja” (HOEBEL,
1999, p.369).
Parece
que abordamos o sobrenatural a todo instante e segundo a ideia primitiva de
mana, essa força pode ser semelhante à realidade do filme Matrix[2],
ou seja, de um mundo dominado por inteligências artificiais quase perfeitas ou
autoritarismos que teriam mais possibilidades de realizações. Em reflexões como
esta da ficção científica e do sobrenatural mencionado por Hoebel é que devemos
considerar a atuação do mana:
[1]
Bronislaw Kasper Malinowski, (Cracóvia, Polônia, 1884 -1942) Antropólogo
funcionalista.
[2]
No filme Matrix (Trilogia) de Andy Wachoeski e Larry Wachowski (1999), o mundo
é uma farsa, construída por uma inteligência artificial e que usa os humanos como seres programados.
O poder, que é
extraordinário, não é uma força deste mundo. Ele não segue as leis regulares
das tecnologias ordinárias ou das habilidades comuns. Como o poder dos
espíritos, ele transcende o natural. O mana é sobrenatural (HOEBEL, 1999,
p.367).
Mircea Eliade também acrescenta que o poder do
mana surgiu de uma necessidade dos homens
para se defenderem do vazio, isto é, da angústia do nada. Ele retira
esta reflexão de um texto védico que se dirige ao um morto: “Rasteja para a
terra, tua mãe! E possa ela te salvar do nada! (ELIADE, 2010, p.8).
De
qualquer forma, podemos dizer que a mente humana não consegue agir sem algo que
lhe assegure sentido, que vamos chamar aqui também de proteção contra toda
espécie de sofrimento ou ameaça imediata, futura ou imaginária.
Para
compreendermos esse repúdio do homem contra tudo o que lhe ameaça, Sai Baba, em
sua tradução do Bhagavadgita nos fala que “o homem não tem a mesma natureza do
corpo que ele ocupa. Ele é o Atma e a natureza do Atma é felicidade” (SAI BABA,
2006, p.147). De acordo com Sai Baba, o verdadeiro ser que habita o corpo, que
conhecemos também como alma ou espírito, em sua totalidade é felicidade, e por
isso, não se identifica com o sofrimento.
Então,
tudo aquilo que nos apresenta como estranho, desconhecido, ameaçador a natureza
da felicidade, recebe uma abordagem estruturada magicamente do mana, como
explica Eliade: “O insólito e o
extraordinário são epifanias perturbadoras; indicam a presença de algo
diferente do natural” (ELIADE, 2010, p.24).
Se
o que nos apresenta é algo incomum, abordamos imediatamente com indagações: O
que é isso? O que pretende? Porque esta fazendo isso? Neste contexto de
perguntas, muitas vezes, obtemos respostas que se enquadram na visão animista
colocadas no início deste capítulo. Algumas das ações desencadeadas a partir
deste universo obedeceram a programação de “naturezas não visíveis” e este
possível diálogo, vamos discutir nas páginas seguintes.

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