Ações
Humanas Desenvolvidas com Base nas Respostas Obtidas de Universos não Visíveis
“Quando o
defeito na vista é corrigido, o Autor deste Universo pode ser visto”[1]
“O fato
de os xamãs, os feiticeiros e os curandeiros serem preferentemente recrutados
entre os neuropatas, ou entre os que apresentam equilíbrio nervoso instável, é
devido ao mesmo prestígio do insólito e do extraordinário”[2]
“E todos
os que tiverem deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou campos, por
minha causa, receberão cem vezes mais e herdarão a vida eterna”[3].
Gostaria
de iniciar este tema com o diálogo de Alice com o Chapeleiro do filme Alice no
País das Maravilhas[4]: “Você
me acha louca? Chapeleiro: Louca, louquinha! Mas vou te contar um segredo:
as melhores pessoas são”. Quando decidimos falar ou escrever sobre universos
não visíveis, sabemos que há grandes
possibilidades de sermos chamados de loucos, mas temos consciência de que
muitos líderes mundiais também foram tidos como insanos em certos momentos.
Eliade,
em seu livro[5]
“Tratado das Religiões” usou o termo “Hierofanias” para falar sobre a
existência de manifestações do sagrado. Assim ele explica que iria começar esse
diálogo detalhando poderes como o mana, que já mencionamos anteriormente e que
a partir de hierofanias elementares cósmicas, uranianas e biológicas, ele
abordaria como o sagrado se constitui:
Por
exemplo, o exame das hierofanias aquáticas ou celestes prover-nos-à de um
material documental apto a levar-nos-à compreensão; 1º do sentido exato da
manifestação do sagrado nestes níveis cósmicos (o céu e as águas); 2º, da
medida em que as hierofanias uranianas ou aquáticas constituem estruturas
autônomas, isto é, revelam uma série de modalidades complementares e
integráveis do sagrado. Passaremos em seguida as hierofanias biológicas (os
ritmos lunares,o sol, a vegetação e a agricultura, a sexualidade etc...), depois
às hierofanias tópicas (lugares consagrados, templos etc...), e finalmente aos
mitos e aos símbolos. (ELIADE, 2010, p.3).
O
diálogo com mundos não visíveis podem acontecer de diversas formas, mas podemos
apontar que a crença em forças misteriosas constituídas em objetos, indivíduos,
almas e espíritos, estão associados a seres superiores. A manifestação de
qualquer elemento que possa ser interpretado como perturbador da mente, logo se
torna indicador de algo estranho, que se traduz como um apelo diferente daquele
que é proporcionado pela força física do corpo.
Essa
força que é sentida diante da evocação de um amuleto ou de um morto,
configura-se na mente humana como percepção daquilo que é eficaz, dinâmico,
criativo e perfeito. Podemos pressupor que tal sensação de poder (conhecidas em
algumas culturas como mana), acontece por intervenção de seres invisíveis:
Mas
ainda: através de uma analise cerrada apercebemo-nos de que um objeto, um
fenômeno cósmico, um ser qualquer, etc., possuem mana graças a intervenção de
um espírito ou à confusão com a epifania de um ser divino qualquer. (ELIADE,
2010, p.28)
O
diálogo estabelecido entre homens e
objetos pode ocorrer de acordo com a relação mantida com seres superiores,
tidos estes, como extraordinários, fortes ou importantes. Trata-se de
incorporações do sagrado segundo Eliade: “Nenhum homem possui essa força por si
mesmo: tudo quanto faz, fá-lo à custa de seres pessoais, espírito da natureza
ou dos antepassados”. (ELIADE, 2010, p.27).
O
passo seguinte se dá pela seleção de palavras, lugares e objetos que possam ser
adquiridos, visitados ou construídos para que favoreçam o diálogo constante com
universos não visíveis. Esta escolha é guiada por sentimentos de força, poder,
eficácia, fertilidade, novidade, entre outros.
Uma
vez estabelecida às escolhas que se revelaram ao indivíduo como
extraordinárias, elas passam a preencher incompletudes humanas por meio de
incorporações, e assim, se manifestam em imagens, símbolos, objetos, etc.,
vejamos nas palavras de Eliade:
Continua a ser algo de diferente do meio
circundante, continua a ser sagrado em virtude da hierofania primordial que a
escolheu, embora o valor que lhe foi atribuído mude segundo a teoria religiosa
em que esta hierofania vem se integrar.
(ELIADE, 2010, p.27).
Os
universos não visíveis representam potencialidades eternas, essas, então,
contida no homem, cuja manifestação em cada indivíduo torna-se o fio que se
estabelece a comunicação por meio da natureza visível das formas e nomes.
A
mente humana ao evocar ou experimentar o extraordinário, sendo este último,
responsável pela vitalidade do homem, alimento do desejo e desencadeador de
ações, produz o mundo visível como resposta da ação orientadora externa. E para
adquirir tal alento, o estado mental do homem deve estar em acordo com aquilo
que o mesmo venera, pois isso o alimenta com sentimentos e emoções de
qualidades semelhantes àquelas que anseiam.
É
necessário se concentrar para ver no mundo a presença dos valores que os
entusiasmam e também os alimentam. Vejamos como isso funciona segundo Sai Baba:
“Quando você assumir seu próprio progresso, obterá uma nova força a cada
primeiro passo que der, vibrará em alegria nova e mais pura; degustará a
plenitude da felicidade” (SAI BABA,2006, p.26).
Dialogar
com universos não visíveis exige do homem posições que lhes possam transmitir
confiança em sua existência, afirmando que ela não se encontra aprisionada no
corpo, e logo, sentir-se em condições de poder se declarar como pertencente a
um universo além da forma física corpórea.
O
fato de nos imaginarmos ou identificarmos com instâncias ilimitadas permitem
que experimentemos sensações de infinitas dimensões de liberdade, cujas
angustias do corpo se assemelham apenas como gotas de água no oceano. As
perguntas e as inquietações direcionadas a vastidão são confortadas na grandeza
deste universo não visível, reconhecido pelo indivíduo como parte integrante de
seu ser.
Estabelecer
uma constante comunicação com os elementos que nos ligam as grandezas
extraordinárias e ao mesmo tempo, criar possíveis linguagens para interações
com aquilo em que acreditamos é o tema de nosso próximo capítulo.
[1] SAI BABA,
2006, p.130.
[2] ELIADE,
2010, p.24.
[3] Palavras
atribuída a Jesus Cristo, Bíblia Sagrada, Mateus 19:29
[4] O filme é baseado no clássico Alice no País das Maravilhas, escrito por Lewis Carroll, em 1862.
[5] ELIADE,
2010, p.2


